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Ricardo Eletro

Vila de Serra Pelada ainda reproduz carências dos anos 1980

Cerca de 6 mil vivem na localidade, que pertence a Curionópolis (18,2 mil).
Asfalto nunca chegou; esgoto corre a céu aberto e doenças proliferam.


Para chegar até a nova mina de Serra Pelada, é preciso percorrer 35 quilômetros de estrada de terra. (Foto: Vianey Bentes/TV Globo) 
Estrada de terra que dá acesso a Serra Pelada
(Foto: Vianey Bentes/TV Globo)
As casas de Serra Pelada ainda são as mesmas dos primeiros garimpeiros que chegaram à região. São barracos improvisados com pedaços de madeira. Ainda é possível encontrar placas em que se identificam os "dormitórios", como eram conhecidos os hotéis improvisados que abrigavam os garimpeiros.
Em 17 e 18 de agosto, o G1 esteve em Serra Pelada e mostra em uma série de reportagens o projeto e a estrutura da nova mina, o cotidiano da localidade e a esperança dos que ainda não desistiram do sonho de encontrar ouro.
Desde o início dos anos 1980, quando a busca pelo ouro teve início na região, Serra Pelada nunca recebeu uma camada de asfalto. Imensos buracos na rodovia BR-155 dificultam o acesso à localidade a partir de Marabá (PA). A visibilidade na estrada de terra é reduzida, em razão das queimadas na região.
Mas o asfalto ainda não está nos planos da empresa canadense Colussus, que, em parceria com a cooperativa dos garimpeiros, prepara a retomada da exploração de minério em Serra Pelada. Ao todo, a previsão de investimentos da empresa na região é de R$ 320 milhões até 2013.
"Vivemos a realidade da nossa região, e sabemos que eles precisam de ajuda. Fazemos a manutenção da estrada da localidade, mas não temos previsão de asfalto", diz o diretor-geral da Colossus no Brasil, Paulo de Tarso Serpa Fagundes.
Serra Pelada ficha 2 (Vale esta) (Foto: Editoria de Arte / G1)
A Prefeitura de Curionópolis estima que cerca de 6 mil pessoas morem na localidade. Segundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 18,2 mil pessoas vivem no município de Curionópolis, ao qual pertence a localidade de Serra Pelada.
No único posto de gasolina de Serra Pelada, é de forma artesanal que se abastecem os veículos que circulam na localidade, basicamente motos.
O telhado do posto é feito de palha. A única bomba de combustível só funciona se alguém estiver mexendo em uma manivela instalada dentro do compartimento por onde o combustível é colocado.
O chamado "pau da mentira", tronco de uma árvore que fica bem na entrada da vila, usado pelos garimpeiros como ponto de encontro para contar o que acontecia no garimpo, ainda está no mesmo lugar, mas a movimentação em torno da árvore diminuiu. Sem ouro em abundância como no início dos anos 1980, faltam contadores de histórias.
"Ninguém vive aqui. A gente sobrevive. A gente veio para cá com a ilusão do ouro. Não tinha num mês, esperava o outro. E assim se passaram meses e anos. Hoje, a gente está velho e continua aqui", diz o garimpeiro José Chaves Farias, que mora em Serra Pelada desde 1982.

Sem estrutura e com o esgoto correndo a céu aberto, Serra Pelada apresenta elevada incidência de hanseníase e de portadores do vírus da Aids, segundo dados da prefeitura.
Uma recente bateria de exames feita pelo posto de saúde da localidade apontou que, de 96 pessoas submetidas a exames, 45 eram portadores do vírus HIV, da Aids.
Programas de prevenção estão sendo organizados pela prefeitura e pela empresa eColossus, a fim de auxiliar na redução dos problemas de saúde da comunidade.
Ùnico posto de gasolina da localidade de Serra Pelada também funciona de forma artesanal. (Foto: Vianey Bentes/TV Globo) 
Ùnico posto de gasolina da localidade de Serra Pelada também funciona de forma artesanal.
(Foto: Vianey Bentes/TV Globo)
Dentes de ouro
Aos 82 anos, o cearense Mariano da Silva chegou à região de Serra Pelada em abril de 1980, e desde então nunca mais deixou o local. Da grande cava aberta pelos primeiros garimpeiros, Silva guarda as lembranças e algumas gramas de ouro, transformadas em quatro dentes.
"Eu tinha um pouco de ouro que guardei e coloquei nos dentes. Eu acho bonito. Fico olhando no espelho os dentes de ouro", conta o garimpeiro.
Sem dinheiro para deixar a localidade, Vicente Silva constituiu família na região. Casou e teve cinco filhos, dos quais dois ainda moram em Serra Pelada, sobrevivendo com os poucos recursos que ainda conseguem retirar da exploração manual do ouro.
Em razão da idade avançada e um braço quebrado, que não foi recuperado, Silva não trabalha mais. Recebe uma aposentadoria por mês e tem de plantar parte do que come.
Sócio da Cooperativa dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp), Silva espera receber em breve os recursos a serem destinados aos garimpeiros pelo acordo firmado com a empresa canadense responsável pela exploração da nova mina de Serra Pelada. Apesar das dificuldades, ele não reclama de viver no local.
"Estou feliz aqui porque estou esperando meu dinheiro. Com fé em Deus a nova mina vai funcionar e nós vamos ter nosso dinheiro também", afirma.

Iara Lemos Do G1, em Serra Pelada

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