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Ricardo Eletro

Bom Jesus da Lapa, profana, comercial e religiosa

“Sou deficiente conto com sua ajuda”, dizia um pedinte. Bem próximo outro justificava através de escrita em uma espécie de cofre, “quem dá ao pobre empresta a Deus. Dê a sua a sua contribuição”. Enquanto o vendedor ambulante anunciava “chega, chega, chega, três é dez, uma é cinco”, o dono da carroça de burro oferecia um “inusitado passeio de charrete por apenas dois reais”. A poucos metros da fervura o padre, durante missa campal, homiliava, “o romeiro que não coloca Jesus como centro de sua vida, corre o risco de se perder pelo caminho e viver como ovelha sem pastor”. Muito barulho e grande movimentação de pessoas.
Estas são apenas algumas das inúmeras curiosidades encontradas por quem visita o município de Bom Jesus da Lapa durante o período que antecede e no dia da festa do padroeiro da cidade, no mês de agosto.
Localizada no oeste da Bahia, à margem do Rio são Francisco, a cidade que possui pouco mais de 60 mil habitantes, recebe milhares de pessoas durante todo o ano, a maior parte romeiro, mas, ao contrário dos que buscam a fé, muitos visitam a cidade para fazer turismo e conhecer o Santuário do Bom Jesus, uma gruta, descoberta em 1691 a mais conhecida do Morro de Bom Jesus da Lapa e antiga morada de onças, que serve como Igreja do Bom Jesus da Lapa. O Santuário foi eleito como a 1ª. Maravilha do Brasil, conforme eleição feita através de votos por um site da inernet, que escolheu as 7 Maravilhas do Brasil. Conforme o padre Roque Silva, responsável pelo Santuário, o saldo anual de visitante é de dois milhões, sendo a segunda maior festa religiosa católica do Brasil,.
Quando perguntado aos romeiros-turistas quais as motivações que os levam a deslocar-se para a Lapa no período da romaria, percorrendo centenas ou mesmo milhares de quilômetros em seus carros particulares ou em ônibus, as respostas mais recorrentes são as de que a romaria fornece-lhes uma ocasião ímpar para "admirar a fé do povo”.
Bom Jesus da Lapa possui três romarias oficiais, ou seja, possui três épocas que há fluxo maior de romeiros. São festas e encontros que se estendem de julho a setembro e que aumentam a população lapense. A festa de julho é a chamada Romaria da Terra. A festa de agosto, que culmina no dia 6, é a do Bom Jesus da Lapa, padroeiro da cidade. A festa de setembro, celebrada no dia 15, é a festa de Nossa Senhora da Soledade.
Durante os festejos os hotéis ficam lotados. Como opção mais barata existem os aluguéis de quartos ou toda uma residência, onde caravanas se aglomeram. As pessoas se acomodam também em embarcações, caminhões, ônibus e barracas montadas na beira do rio que ladeia a cidade e em praças públicas. É comum encontrar casas de improviso feitas com lonas e outros materiais para acomodar o excesso de pessoas.
Acampados, arranchados, levando vida de cigano, os romeiros dormem em esteiras, no chão, na poeira. Cozinha, faz trempe de pedra, põe as panelas em cima. Não precisa colher, não precisa talher. Quanto mais humilde melhor. Porque romeiro só é romeiro se ele ficar assim, na poeira, mostrando sofrimento.
As pessoas que acorrem ao santuário no período da romaria percebe-se que romeiros e turistas se confundem tanto em relação às suas motivações quanto aos seus comportamentos.
Durante os festejos se encontra de tudo nas ruas, becos e esquinas da cidade, desde o remédio natural que serve ao mesmo tempo para curar pressão alta e pressão baixa, a rapaduras de cana-de-açúcar, artesanatos, cobertores, roupas e até eletroeletrônicos importados. Na parte ecumênica as fitinhas da “Lembrança de Bom Jesus”, chaveiros, camisas alusivas e imagens de santos predominam. No auge das comemorações, os lapenses costumam dizer que o número de “muambeiros” chega a ser maior que de romeiros. O número de vendedores é tão grande, que a prefeitura da cidade criou o Shopping do Romeiro, uma gigantesca estrutura coberta por toldos onde ambulantes disputam espaços que podem chegar a 15 mil reais a utilização o uso do solo.
Aproveitando a presença dos milhares de visitantes, o município oferece gratuitamente diversas atrações artísticas, como apresentações teatrais, shows musicais, exposições e outros. Em espaço particular acontecem shows com cantores renomados.
Crime/Prostituição - Inevitavelmente, é grande também o número de ocorrências policiais. Assaltos a mão-armada, roubos e outros delitos são registrados constantemente. Outro contrassenso é a prostituição. Mulheres jovens e adultas disputam parceiros em barzinhos bem próximos ao Santuário.
Com todas as adversidades e curiosidades, a Lapa é um lugar único, lúdico, mágico, místico e, principalmente, abençoado pelo Bom Jesus e Nossa Senhora da Soledade.

Por Gervásio Lima
Jornalista e historiador
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